Saturday, November 22, 2008

Classe média "Xique"

"És um reles! Não sabes fazer nada! Eu quando tinha a tua idade já contribuía para a casa! E tu?! Tu nem sequer és capaz de limpar o rabo! Sim! o rabo! o cú! Ainda ontem estava outra vez uma poia enooorme da casa de banho! Uma poia! E não havia maneira de descer!"

Este é o retrato ao vivo e a cores do que se passa no prédio onde vivo, no seio de uma típica família de classe média-alta que usa fato completo, que conduz um mercedes, que vive numa casa de 300.000 euros numa zona nobre da capital. É o retrato de uma família que delira com os golos marcados pelo Sporting e sofridos pelo Benfica, que grita todos os dias com a mulher-a-dias e que não sabe explicar ao filho o que é uma raíz quadrada. Para além de tudo isto gostam de falar alto (não, não tenho lá escutas, basta não ter a televisão ligada).

E todas as minnhas esperanças de que o tempo traga uma sociedade mais informada caem por terra. Porque este miúdo vai acabar bêbedo a trabalhar para a CAIS, ou tornar-se jogador de futebol e gastar milhões em terapia ou vai ser Kafka. Ou, se tiver muita sorte, vai atirar tomates e ovos à Ministra da Educação, receber uma palmadinha nas costas por parte do pai, perceber que nasceu para a política e tornar-se primeiro-ministro.

E até consigo perceber porque é que a Manuela FL disse o que disse.
Também aposto que o meu vizinho jamais diria algo tão... sórdido, para não dizer merdoso.

Lemas de vida

Ontem fui confrontada com duas frases da nossa cultura popular que podiam muito bem ser dois lemas de vida:

"Mais vale uma mão inchada do que uma enxada na mão."

"São muitos anos a virar frangos."

Qual das duas me ajudará a ascender a Manager de uma coisa qualquer?
(Manager antes dos 35... esse derradeiro objectivo de vida, esse barómetro social que me foi tão generosamente dado a conhecer no decorrer de uma aula)

Monday, November 3, 2008

Como melhorar as notas de língua portuguesa

Alguns factos sobre Pessoa, caso alguma vez precisem de convencer um filho, irmão mais novo ou aluno de que um heterónimo não é um molusco pré-histórico e que é possível estudar a Mensagem sem recorrer ao livrinho da Europa-América:

- Fumava 40 cigarros por dia

- Conta-se que foi apanhado várias vezes a masturbar-se em frente aos manequins das lojas da rua Augusta

- Os Moonspell, que são uma banda muito fixe e muito dark, têm uma música fabulosa inspirada no seu vício por ópio

Se isso não chegar, digam-lhes para desistirem da escola e voltarem daqui a uns anos com o programa novas oportunidades.

E... é só o meu mau feitio ou quando andam pelo Chiado e vêem alguém a fazer-lhe festas na cabeça também vos dá uma forte vontade de fulminá-los (o alguém, mais a estátua, mais a alma que teve a brilhante ideia de lá pôr a estátua)?

Strange kind of thinking

"Se eu fumasse, acenderia agora um cigarro, a olhar o rio, pensando como tudo é vago e vário. Assim, não fumando, apenas pensarei que tudo é vário e vago, realmente, mas sem cigarro, ainda que o cigarro, se o fumasse, por si mesmo exprimisse a variedade e a vaguidade das coisas, como o fumo, se fumasse."

Estranho, vago, descabido e irresistível. Tal como o Strange kind of love que vai ecoando para fora das quatro paredes da minha casa e da minha pessoa.

Grande senhor. Grande concerto.