Manhãs de sábado numa Lisboa solarenga.
Descer à feira do Príncipe Real, onde o cosmopolita admira a cosmopolita agricultura biológica.
Beber café e deslumbrar-me com a vista de Lisboa, enquadrada pela neblina do Tejo.
Derreter o dinheiro com que ía renovar o guarda-roupa na feira do livro da Bertrand (A minha mãe não vai ficar muito contente, mas parece tão acertado.) Encontrar o final da história do Corsário Negro, que já tinha desistido de procurar há 10 anos.
Passear pelo Chiado enquanto me amaldiçoo por ter comprado uma montanha de livros que pesa como chumbo, que me deixa os braços dormentes e que eu não vou ter tempo para ler.
Visita da praxe à FNAC. Nada de novo.
Sorrir ao ouvir o fado da rua do carmo.
Comprar um portuguesíssimo pastel de bacalhau da Casa Chinesa.
Sorrir aos “Qués achhh” da Rua Augusta.
Acenar ao motorista que murmura “Aquele carteirista já tinha idade para ter juízo”
Gravar na mente a vista da retaguarda do eléctrico 28.
Trocar dois dedos de conversa com a companheira de viagem de forte cheiro a bagaço (e espectacularmente bem conservada):
"Estamos a meados de Outubro e já puseram os enfeites de Natal."
"Pois."
"Tenho tanta vontade de fazer chichi e só saio na Estrela."
" ..."
"Estou com aquela senhora ali. Não é minha companheira, só anda comigo. É só beata, não é freira."
"Sim."
"As beatas... não gosto de beatas... estão todas apaixonadas por Cristo e assim. Eu amo só a Deus."
"Há pessoas piores por quem se apaixonar."
"Santa Teresinha é que sabia. Ela escreveu muito sobre a vida das beatas. Todas apaixonadas... Mas nenhum historiador lhe faz justiça."
"À Santa Teresinha?"
"Sim, menina! Ninguém sabe explicar como ela era. Todos dizem coisas diferentes, mas ninguém sabe explicá-la. Eu conheço-a, a minha Santa Teresinha..."
Sorrio.
"Não gosto de beatas. Só ando com ela para pagar pelo meu vício."
"... É a minha saída."
Lisboa de céu carregado e cheiro a trovoada.
Sorrio ao vizinho da frente que fuma à janela de prato fundo na mão, ao som do "Like a Virgin".
Oiço o céu a desabar enquanto rodo a chave na fechadura. Está tudo no lugar certo.
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