"És um reles! Não sabes fazer nada! Eu quando tinha a tua idade já contribuía para a casa! E tu?! Tu nem sequer és capaz de limpar o rabo! Sim! o rabo! o cú! Ainda ontem estava outra vez uma poia enooorme da casa de banho! Uma poia! E não havia maneira de descer!"
Este é o retrato ao vivo e a cores do que se passa no prédio onde vivo, no seio de uma típica família de classe média-alta que usa fato completo, que conduz um mercedes, que vive numa casa de 300.000 euros numa zona nobre da capital. É o retrato de uma família que delira com os golos marcados pelo Sporting e sofridos pelo Benfica, que grita todos os dias com a mulher-a-dias e que não sabe explicar ao filho o que é uma raíz quadrada. Para além de tudo isto gostam de falar alto (não, não tenho lá escutas, basta não ter a televisão ligada).
E todas as minnhas esperanças de que o tempo traga uma sociedade mais informada caem por terra. Porque este miúdo vai acabar bêbedo a trabalhar para a CAIS, ou tornar-se jogador de futebol e gastar milhões em terapia ou vai ser Kafka. Ou, se tiver muita sorte, vai atirar tomates e ovos à Ministra da Educação, receber uma palmadinha nas costas por parte do pai, perceber que nasceu para a política e tornar-se primeiro-ministro.
E até consigo perceber porque é que a Manuela FL disse o que disse.
Também aposto que o meu vizinho jamais diria algo tão... sórdido, para não dizer merdoso.
Saturday, November 22, 2008
Lemas de vida
Ontem fui confrontada com duas frases da nossa cultura popular que podiam muito bem ser dois lemas de vida:
"Mais vale uma mão inchada do que uma enxada na mão."
"São muitos anos a virar frangos."
Qual das duas me ajudará a ascender a Manager de uma coisa qualquer?
(Manager antes dos 35... esse derradeiro objectivo de vida, esse barómetro social que me foi tão generosamente dado a conhecer no decorrer de uma aula)
"Mais vale uma mão inchada do que uma enxada na mão."
"São muitos anos a virar frangos."
Qual das duas me ajudará a ascender a Manager de uma coisa qualquer?
(Manager antes dos 35... esse derradeiro objectivo de vida, esse barómetro social que me foi tão generosamente dado a conhecer no decorrer de uma aula)
Monday, November 3, 2008
Como melhorar as notas de língua portuguesa
Alguns factos sobre Pessoa, caso alguma vez precisem de convencer um filho, irmão mais novo ou aluno de que um heterónimo não é um molusco pré-histórico e que é possível estudar a Mensagem sem recorrer ao livrinho da Europa-América:
- Fumava 40 cigarros por dia
- Conta-se que foi apanhado várias vezes a masturbar-se em frente aos manequins das lojas da rua Augusta
- Os Moonspell, que são uma banda muito fixe e muito dark, têm uma música fabulosa inspirada no seu vício por ópio
Se isso não chegar, digam-lhes para desistirem da escola e voltarem daqui a uns anos com o programa novas oportunidades.
E... é só o meu mau feitio ou quando andam pelo Chiado e vêem alguém a fazer-lhe festas na cabeça também vos dá uma forte vontade de fulminá-los (o alguém, mais a estátua, mais a alma que teve a brilhante ideia de lá pôr a estátua)?
- Fumava 40 cigarros por dia
- Conta-se que foi apanhado várias vezes a masturbar-se em frente aos manequins das lojas da rua Augusta
- Os Moonspell, que são uma banda muito fixe e muito dark, têm uma música fabulosa inspirada no seu vício por ópio
Se isso não chegar, digam-lhes para desistirem da escola e voltarem daqui a uns anos com o programa novas oportunidades.
E... é só o meu mau feitio ou quando andam pelo Chiado e vêem alguém a fazer-lhe festas na cabeça também vos dá uma forte vontade de fulminá-los (o alguém, mais a estátua, mais a alma que teve a brilhante ideia de lá pôr a estátua)?
Strange kind of thinking
"Se eu fumasse, acenderia agora um cigarro, a olhar o rio, pensando como tudo é vago e vário. Assim, não fumando, apenas pensarei que tudo é vário e vago, realmente, mas sem cigarro, ainda que o cigarro, se o fumasse, por si mesmo exprimisse a variedade e a vaguidade das coisas, como o fumo, se fumasse."
Estranho, vago, descabido e irresistível. Tal como o Strange kind of love que vai ecoando para fora das quatro paredes da minha casa e da minha pessoa.
Grande senhor. Grande concerto.
Estranho, vago, descabido e irresistível. Tal como o Strange kind of love que vai ecoando para fora das quatro paredes da minha casa e da minha pessoa.
Grande senhor. Grande concerto.
Saturday, October 18, 2008
Como recuperar o espírito de férias em 3 horas
Manhãs de sábado numa Lisboa solarenga.
Descer à feira do Príncipe Real, onde o cosmopolita admira a cosmopolita agricultura biológica.
Beber café e deslumbrar-me com a vista de Lisboa, enquadrada pela neblina do Tejo.
Derreter o dinheiro com que ía renovar o guarda-roupa na feira do livro da Bertrand (A minha mãe não vai ficar muito contente, mas parece tão acertado.) Encontrar o final da história do Corsário Negro, que já tinha desistido de procurar há 10 anos.
Passear pelo Chiado enquanto me amaldiçoo por ter comprado uma montanha de livros que pesa como chumbo, que me deixa os braços dormentes e que eu não vou ter tempo para ler.
Visita da praxe à FNAC. Nada de novo.
Sorrir ao ouvir o fado da rua do carmo.
Comprar um portuguesíssimo pastel de bacalhau da Casa Chinesa.
Sorrir aos “Qués achhh” da Rua Augusta.
Acenar ao motorista que murmura “Aquele carteirista já tinha idade para ter juízo”
Gravar na mente a vista da retaguarda do eléctrico 28.
Trocar dois dedos de conversa com a companheira de viagem de forte cheiro a bagaço (e espectacularmente bem conservada):
"Estamos a meados de Outubro e já puseram os enfeites de Natal."
"Pois."
"Tenho tanta vontade de fazer chichi e só saio na Estrela."
" ..."
"Estou com aquela senhora ali. Não é minha companheira, só anda comigo. É só beata, não é freira."
"Sim."
"As beatas... não gosto de beatas... estão todas apaixonadas por Cristo e assim. Eu amo só a Deus."
"Há pessoas piores por quem se apaixonar."
"Santa Teresinha é que sabia. Ela escreveu muito sobre a vida das beatas. Todas apaixonadas... Mas nenhum historiador lhe faz justiça."
"À Santa Teresinha?"
"Sim, menina! Ninguém sabe explicar como ela era. Todos dizem coisas diferentes, mas ninguém sabe explicá-la. Eu conheço-a, a minha Santa Teresinha..."
Sorrio.
"Não gosto de beatas. Só ando com ela para pagar pelo meu vício."
"... É a minha saída."
Lisboa de céu carregado e cheiro a trovoada.
Sorrio ao vizinho da frente que fuma à janela de prato fundo na mão, ao som do "Like a Virgin".
Oiço o céu a desabar enquanto rodo a chave na fechadura. Está tudo no lugar certo.
Descer à feira do Príncipe Real, onde o cosmopolita admira a cosmopolita agricultura biológica.
Beber café e deslumbrar-me com a vista de Lisboa, enquadrada pela neblina do Tejo.
Derreter o dinheiro com que ía renovar o guarda-roupa na feira do livro da Bertrand (A minha mãe não vai ficar muito contente, mas parece tão acertado.) Encontrar o final da história do Corsário Negro, que já tinha desistido de procurar há 10 anos.
Passear pelo Chiado enquanto me amaldiçoo por ter comprado uma montanha de livros que pesa como chumbo, que me deixa os braços dormentes e que eu não vou ter tempo para ler.
Visita da praxe à FNAC. Nada de novo.
Sorrir ao ouvir o fado da rua do carmo.
Comprar um portuguesíssimo pastel de bacalhau da Casa Chinesa.
Sorrir aos “Qués achhh” da Rua Augusta.
Acenar ao motorista que murmura “Aquele carteirista já tinha idade para ter juízo”
Gravar na mente a vista da retaguarda do eléctrico 28.
Trocar dois dedos de conversa com a companheira de viagem de forte cheiro a bagaço (e espectacularmente bem conservada):
"Estamos a meados de Outubro e já puseram os enfeites de Natal."
"Pois."
"Tenho tanta vontade de fazer chichi e só saio na Estrela."
" ..."
"Estou com aquela senhora ali. Não é minha companheira, só anda comigo. É só beata, não é freira."
"Sim."
"As beatas... não gosto de beatas... estão todas apaixonadas por Cristo e assim. Eu amo só a Deus."
"Há pessoas piores por quem se apaixonar."
"Santa Teresinha é que sabia. Ela escreveu muito sobre a vida das beatas. Todas apaixonadas... Mas nenhum historiador lhe faz justiça."
"À Santa Teresinha?"
"Sim, menina! Ninguém sabe explicar como ela era. Todos dizem coisas diferentes, mas ninguém sabe explicá-la. Eu conheço-a, a minha Santa Teresinha..."
Sorrio.
"Não gosto de beatas. Só ando com ela para pagar pelo meu vício."
"... É a minha saída."
Lisboa de céu carregado e cheiro a trovoada.
Sorrio ao vizinho da frente que fuma à janela de prato fundo na mão, ao som do "Like a Virgin".
Oiço o céu a desabar enquanto rodo a chave na fechadura. Está tudo no lugar certo.
Thursday, October 16, 2008
Final do dia
De facto não fomos feitos para viver sozinhos.
Desde que os outros notaram que juntos conseguiam caçar aqueles grandes elefantes peludos e ficar com mantimentos para um Inverno de 6 meses, a evolução passou a centrar-se na colecta de mantimentos de todo o género.
Acredito que um ou outro consiga dizer honestamente que vive feliz como eremita, desde que tenha acesso à Amazon. Mas isso é um produto da portentosa evolução que temos vindo a sofrer nos últimos tempos, e considero-os uma outra espécie. É de frisar que o oposto dá o mesmo resultado.
Melhor ou pior? Não sou ninguém para fazer juízos de valor.
Desde que os outros notaram que juntos conseguiam caçar aqueles grandes elefantes peludos e ficar com mantimentos para um Inverno de 6 meses, a evolução passou a centrar-se na colecta de mantimentos de todo o género.
Acredito que um ou outro consiga dizer honestamente que vive feliz como eremita, desde que tenha acesso à Amazon. Mas isso é um produto da portentosa evolução que temos vindo a sofrer nos últimos tempos, e considero-os uma outra espécie. É de frisar que o oposto dá o mesmo resultado.
Melhor ou pior? Não sou ninguém para fazer juízos de valor.
1998
"Mas olha que este CD já é antigo"
"Antigo? Mas os Oasis só existem desde 90 e troca o passo!"
"Pois... é antigo..."
E, mais do que pensar que a Expo já foi há 10 anos, hoje abateu-se sobre mim a terrível verdade... 1998 foi há 10 anos e eu não aprendi assim tanta coisa.
"Antigo? Mas os Oasis só existem desde 90 e troca o passo!"
"Pois... é antigo..."
E, mais do que pensar que a Expo já foi há 10 anos, hoje abateu-se sobre mim a terrível verdade... 1998 foi há 10 anos e eu não aprendi assim tanta coisa.
Monday, October 6, 2008
Um iogurte e uma maçã
Dia cheio...
1. Comecei por matutar sobre o discurso de um companheiro de uma viagem surreal que afirmava em altos berros que não era Preto da Buraca, que se vestia bem, que não era nenhum salafrário, depois do motorista lhe pedir que se sentasse no seu lugar. O motorista defendeu-se prontamente no mesmo tom de voz "Eu sou Ucraniano! Ucraniano!"
2. Caso restassem dúvidas, obtive a confirmação de que vendi a minha alma ao diabo em algum momento dos últimos meses, ao permitir que me instruissem sobre a importância de defender os interesses económicos da empresa onde tenha a sorte de trabalhar, e que me tratassem como uma jovem e manipulavel aluna do 5º ano de licenciatura.
3. e alguém me disse, de sobrancelha erguida, como que desvelando o segredo da felicidade absoluta: ontem só comi um iogurte e uma maçã ao jantar.
Maldita necessidade de integração social...
1. Comecei por matutar sobre o discurso de um companheiro de uma viagem surreal que afirmava em altos berros que não era Preto da Buraca, que se vestia bem, que não era nenhum salafrário, depois do motorista lhe pedir que se sentasse no seu lugar. O motorista defendeu-se prontamente no mesmo tom de voz "Eu sou Ucraniano! Ucraniano!"
2. Caso restassem dúvidas, obtive a confirmação de que vendi a minha alma ao diabo em algum momento dos últimos meses, ao permitir que me instruissem sobre a importância de defender os interesses económicos da empresa onde tenha a sorte de trabalhar, e que me tratassem como uma jovem e manipulavel aluna do 5º ano de licenciatura.
3. e alguém me disse, de sobrancelha erguida, como que desvelando o segredo da felicidade absoluta: ontem só comi um iogurte e uma maçã ao jantar.
Maldita necessidade de integração social...
Overture
Coisas de quem vive só e não tem programa para todas as noites da semana.
Não confundir com melancolia. Isso é coisa de gente com idade para ser gestor.
Não confundir com melancolia. Isso é coisa de gente com idade para ser gestor.
Subscribe to:
Posts (Atom)
